Os Desafios do Crescimento, Atos 6:1-7
O avanço do Reino traz novos desafios que demandam sabedoria organizacional.
Mensagem: No mover de Deus, como fruto da oração e da pregação da Palavra, ocorre um crescimento orgânico que requer uma estrutura organizacional sólida. Esta estrutura é essencial para a boa gestão de crises e para o contínuo e saudável crescimento, tanto na fé quanto em número.
Esboço:
Introdução
Os primeiros cinco capítulos de Atos apresentaram o estabelecimento da igreja em Jerusalém e o início da oposição a ela devido à pregação de Jesus. A partir do capítulo 6, vemos o trabalho missionário da igreja se expandindo e, com isso, o aumento dos problemas internos, externos e das perseguições (At 6:1–8:3; 8:4-25; 9:1-30, entre outros).
Atos 6 inicia narrando que, em meio ao crescimento do número de discípulos, surgiu um grave problema: a falta de assistência social a certas viúvas. Este é um dos desafios que surgem com o crescimento numérico da igreja.
Já percebeu que o crescimento também traz seus desafios e problemas? E que há pessoas que, por exemplo, não gostam de ver a igreja crescer?
Então, surgem comentários como:
“Igreja grande não tem comunhão.”
“O pastor não tem tempo para mim, não se preocupa mais comigo.”
“Não me sinto envolvido; sinto-me desconfortável.”
“Igreja grande tem muita gente para trabalhar; sou mais útil em uma igreja pequena.”
“Não tenho mais o controle do ministério.”
Entre outros.
No mover de Deus, como fruto da oração e da pregação da Palavra, ocorre um crescimento orgânico que requer uma estrutura organizacional sólida. Esta estrutura é essencial para a boa gestão de crises e para o contínuo e saudável crescimento, tanto na fé quanto em número (Colossenses 2:19; Efésios 4:11-16; Atos 16:5)
Exposição do texto bíblico, Atos 6:1-7 (ARA)
6:1 Ora, naqueles dias, multiplicando-se o número dos discípulos, houve murmuração dos helenistas contra os hebreus, porque as viúvas deles estavam sendo esquecidas na distribuição diária.
Em Atos 2:44-45 e 4:32-35, ao narrar sobre a vida da igreja, registra-se que uma das expressões da comunhão e do viver comum era a generosidade voluntária. Eles atendiam aos necessitados a tal ponto que lemos: “...e em todos eles havia abundante graça. Pois nenhum necessitado havia entre eles”, Atos 4:33b-34a.
No entanto, aqui no capítulo 6, encontramos o problema das viúvas dos helenistas (judeus que falavam grego), que estavam sendo negligenciadas - “esquecidas na distribuição (διακονια / diakonia) diária”. Em consequência disso, surgiram “murmurações” (goggusmos / γογγυσμός) — um debate secreto ou o compartilhamento não aberto de uma insatisfação — contra os hebreus (judeus nativos que falavam aramaico).
Os termos “helenistas” e “hebreus” destacam dois grupos com características culturais distintas na comunidade cristã primitiva. Tais diferenças podem gerar acepção de pessoas e conflitos relacionais, visto que um grupo pode acabar sendo priorizado no atendimento às suas necessidades, negligenciando-se o outro. (Atos 11:19-20)
O não atendimento àquelas que verdadeiramente são viúvas e não têm amparo (1 Timóteo 5:5) nega um dos aspectos do viver cristão que agrada a Deus, pois a:
“religião pura e sem mácula para com o nosso Deus e Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações...” Tiago 1:27a.
“Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei ao opressor; defendei o direito do órfão, pleiteai a causa das viúvas.” Isaías 1:17 (cf. Deuteronômio 24:19-22; Isaías 1:17; Mateus 23:14; Atos 9:39).
Contudo, em Atos 6, constatamos que algumas viúvas estavam sendo negligenciadas em suas necessidades. Surge aqui o problema real de carências e expectativas não atendidas......
Então, como a liderança espiritual lidou com essa situação crítica — o não atendimento das viúvas dos helenistas?
6:2 Então, os doze convocaram a comunidade dos discípulos e disseram: Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas. 3 Mas, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais encarregaremos deste serviço; 4 e, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra.
Os doze apóstolos, grupo que agora incluía Matias (Atos 1:21-26), agiram sob a dependência e direção do Espírito Santo. Eles reconheceram a gravidade do problema e buscaram uma solução que resultou em grande bênção, conforme descrito no versículo 7.
A ação dos apóstolos, Atos 6:2-4:
Convocaram a comunidade dos discípulos, 6:2a “Então, os doze convocaram a comunidade dos discípulos e disseram…” (cf. Atos 6:7; 9:1; 11:26; 13:52): Demonstraram transparência e envolveram o corpo da igreja na solução.
Trataram do problema sem negligenciar a prioridade apostólica, 6:2b “Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir (διακονεω / diakoneo) às mesas” (cf. Romanos 12:7; 1 Pedro 4:10,11): Reconheceram a legitimidade da carência sem permitir que ela desviasse o foco da missão principal.
Recomendaram a formação de uma equipe específica para o “servir às mesas” (’diakoneo’), 6:3 “Mas, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais encarregaremos (καθιστημι / kathistemi) deste serviço (χρεια / chreia)” (cf. Atos 6:10; 7:10, 22; Números 27:16–20; 1 Timóteo 3:8-13): Delegaram autoridade para que o cuidado fosse feito com excelência.
Reforçaram a prioridade ministerial sem desprestigiar o serviço prático, 6:4* “e, quanto a nós, nos consagraremos (προσκαρτερεω / proskartereo) à oração (προσευχή - proseuchē) e ao ministério (διακονια / diakonia) da palavra (λόγος – logos)” (cf. Atos 1:14; Atos 2:42; Efésios 4:11,12; 1 Timóteo 5:17): Estabeleceram que a oração e a Palavra são fundamentais, enquanto o serviço diaconal é o suporte essencial para que isso ocorra.
A “oração”, “o avançar de joelhos” – a vida de oração deve ser um dos “motores” espirituais da vida da igreja...
6:5 O parecer agradou a toda a comunidade; e elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia. 6 Apresentaram-nos perante os apóstolos, e estes, orando, lhes impuseram as mãos.
“A proposta feita pelos Doze foi apresentada diante de uma reunião da igreja e obteve a aprovação de todos. A escolha dos sete candidatos foi feita pelos membros da igreja, e não pelos próprios apóstolos. […] Estêvão e Filipe aparecem primeiro na lista em razão de sua importância subsequente na história, e somos preparados para a relevância de Estêvão pela descrição mais completa dele como um homem de fé. O último nome mencionado é o de um prosélito, que seria classificado como um judeu propriamente dito. O Filipe listado aqui é uma pessoa diferente de Filipe, o apóstolo (veja Atos 8:5; Atos 21:8ss)”
( MARSHALL, I., Acts: an introduction and commentary, vol. 5, Tyndale New Testament Commentaries (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1980), 132–136).
Na lista do versículo 5, há um destaque para Estêvão (vv. 8-10 ss), cuja história de poderoso testemunho termina, neste mundo, de modo trágico. Ele tornou-se mais um mártir por causa da fé em Cristo, fruto das calúnias e injúrias levantadas contra ele.
“Após os homens terem sido escolhidos, foram colocados diante dos Doze, que os designaram para a sua tarefa, orando por eles e impondo-lhes as mãos. [...] O rito indicava uma concessão de autoridade, e a oração que o acompanhava era para que o poder do Espírito preenchesse os destinatários (cf. Dt 34:9). Um rito semelhante era usado na nomeação de rabinos, mas há certa incerteza se isso remonta ao primeiro século. Veja mais em 8:17; 9:17; 13:3; 19:6” (MARSHALL, Ibidem).
A ‘imposição de mãos’ significa o reconhecimento e a confirmação da vocação e da missão dadas por Deus. Trata-se da investidura no ofício e do comissionamento para o chamado divino, sendo acompanhada pelo clamor pelas bênçãos do Senhor sobre o comissionado, visando ao fiel cumprimento de sua missão.
“E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando, e orando, e impondo sobre eles as mãos, os despediram.” Atos 13:2,3 (cf. 1 Timóteo 4:14; 1 Timóteo 5:22; 2 Timóteo 1:6)
6:7 Crescia a palavra de Deus, e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos; também muitíssimos sacerdotes obedeciam à fé.
Este texto deixa evidente que, uma vez que o problema foi tratado com diligência, zelo e sabedoria no Espírito Santo — mantendo-se o foco e as prioridades ministeriais corretas —, o resultado foi a multiplicação do número dos discípulos.
Lucas destaca muitas conversões entre os sacerdotes (ερευς / hiereus) - “metáf. dos cristãos, porque, purificados pelo sangue de Cristo e conduzidos a comunhão plena com Deus, dedicam suas vidas somente a Ele e a Cristo”
(OLIVE TREE BIBLE APP. Bíblia Almeida com Números de Strong. Versão digital. Spokane, WA: Olive Tree Bible Software)
“Sacerdotes obedeciam a fé”( cf. Ro. 1:5; 16:26. 2 Th. 1:8. He. 5:9; 11:8)
( B. Blayney, Thomas Scott, e R.A. Torrey with John Canne, Browne, The Treasury of Scripture knowledge, vol. 2 (London: Samuel Bagster and Sons, [s.d.]), 87.
Grande número de sacerdotes ‘obedecia à fé’ — a religiosidade por si só não salva; pelo contrário, pode ser a maior barreira ao Evangelho. Lucas testemunha que até mesmo os sacerdotes estavam crendo e depositando sua confiança em Cristo, o que resultava em uma vida de obediência ao Evangelho.
“E foi designado Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade pela ressurreição dos mortos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor, por intermédio de quem viemos a receber graça e apostolado por amor do seu nome, para a obediência por fé, entre todos os gentios, de cujo número sois também vós, chamados para serdes de Jesus Cristo.” Romanos 1:4-6
Quando, em piedade, não se perde o foco na oração e no ministério da Palavra — que envolve a pregação, o ensino e a proclamação —, e isso se alia à saúde orgânica e estrutural da Igreja, o Corpo Vivo de Cristo, Deus concede o crescimento no número dos discípulos. (cf. Atos 2:47; Atos 6:7; Atos 16:5; 1 Coríntios 3:3-6)
Conclusão / Desafios
Concluímos esta mensagem com quatro lições que se tornam desafios para todos nós:
O crescimento que vem de Deus não pede licença para chegar, mas exige estrutura para permanecer (6:1): O avanço do Reino traz novos desafios que demandam sabedoria organizacional.
É imperativo reconhecer a legitimidade das carências sem permitir que elas desviem o foco da missão principal (6:2-4): A liderança deve ser sensível às necessidades sociais sem sacrificar a prioridade da Palavra e da oração.
Líderes movidos pelo Espírito Santo para o cumprimento da missão são reconhecidos e referendados pela comunidade (6:5-6): A vocação interna (divina) deve ser confirmada pela vocação externa (comunidade), segundo os critérios bíblicos.
Igrejas saudáveis equilibram adoração, edificação, comunhão, serviço e evangelização (6:7): Quando a estrutura serve ao propósito, o resultado natural, sob a bênção de Deus, é a expansão do Evangelho.
No mover de Deus, como fruto da oração e da pregação da Palavra, ocorre um crescimento orgânico que requer uma estrutura organizacional sólida. Esta estrutura é essencial para a boa gestão de crises e para o contínuo e saudável crescimento, tanto na fé quanto em número (Colossenses 2:19; Efésios 4:11-16; Atos 16:5)
✏ Exercício
A sua responsabilidade, debaixo da graça e capacitação divina é a de modo perseverante, e confiante aplicar os princípios e as verdades divinas que tens ouvido (Filipenses 2:12,13; 1 Timóteo 4:7-9; Tiago 1:22-27).
Como eu posso colocar isso em prática na minha vida?
Qual o primeiro passo que darei nessa direção (para que haja real transformação em minha vida)?
Conheça… Creia. Aproprie-se... E, pratique a verdade divina para que experimentes a vida plena que há em Jesus Cristo (João 10:10).



